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quinta-feira, junho 5

Pobreza envergonhada à minha porta

Tinha acabado de chegar a casa.
Um toque de campainha fez-me largar o biscoito que tinha na mão e ir abrir a porta. Por estes lados, ainda não são necessários excessivos cuidados quando se abre a porta de casa.
- Boa tarde, não sabe da D. Alzira?
...?? Certamente deveria saber,mas não sabia.
- Ela não está, nem o carro está à porta...
...?? Como pude não reparar que a D.Alzira não estava em casa, nem tinha o carro estacionado em cima do passeio, como é costume??

Ainda surpreendida com esta abordagem, lá disse à senhora que realmente não sabia, esperando secretamente que me deixasse voltar ao meu biscoito de mel.
Mas não estava no meu momento de sorte. A senhora não desencostava da ombreira e cada vez me parecia mais cansada. Estava para ficar.
- Quer que lhe dê algum recado se a vir? (diz depressa, pensava eu)
Desencostou-se da ombreira, titubeou qualquer coisa que apenas no final entendi...
" Vinha pedir-lhe que me emprestasse 10 euros. Está tudo tão mau... o meu marido em casa , a filha não arranja trabalho.... tenho de aviar esta receita..."

Nada melhor do que chamar o cão naquele momento. Deste modo, olhava para o chão e talvez não cruzasse o olhar com aquela pessoa que também não me olhava ,enquanto me tentava dizer o que nunca tinha pensado dizer a quem não conhecia.

Disse que voltaria para me pagar, mas espero não estar em casa nem ter o carro estacionado à porta. Sinto-me envergonhada.

Obrigada, D. Alzira.

Há muito tempo que sabia que "está tudo muito mau", que já "há maridos em casa" e "filhos sem emprego" e perguntava-me como viveriam.
A resposta foi-me dada, sem precisar de ir à rua.

Passou-se hoje comigo, amanhã mais alguém saberá como se vive numa pequena cidade de interior, onde a maioria das pessoas se conhece, onde não há mãos estendidas em cada passeio que se atravessa, onde ainda há pudor em mostrar a necessidade que existe em casa.
Há apenas pobreza envergonhada. Até quando?